Venezuelanos buscam passagens de última hora para deixar o país

Êxodo em massa. : Despedidas no aeroporto internacional de Caracas se repetem todos os dias

Há seis meses a Venezuelana Kristina e seu namorado, chegaram  a Argentina em busca de um futuro que, segundo ambos, a Venezuela governada por Nicolás Maduro não oferece aos jovens profissionais. O casal é apenas um caso, entre milhares, que confirma a cada vez mais expressiva migração de venezuelanos entre 25 e 50 anos, espalhados pelo continente e também pela Europa. Num país que não divulga sua taxa de inflação, não há estatísticas oficiais sobre a debandada de jovens, mas pesquisadores locais estimam que nos últimos dez anos o número oscilou entre 800 mil e 1,2 milhão. Deste total, calcula-se que 90% em idade profissional.

Kristina, de 28 anos, formada em Artes Visuais, já se acostumou com as brincadeiras diárias dos argentinos, que se surpreendem ao saber seu nome. Trata-se de uma incomodidade ínfima, ao lado da realidade que teve de viver em seu país, antes de partir, primeiro para a Espanha e, seis meses depois, para a Argentina. Outros nove amigos da venezuelana se instalaram em Buenos Aires este ano. Todos chegaram procurando qualidade de vida e salários dignos.

Além da grave crise econômica, os jovens venezuelanos abandonam o país pelos altos índices de insegurança, principalmente em grandes cidades.

— O irmão de meu namorado já estava aqui e isso nos ajudou, além das facilidades para obter a residência, graças aos acordos do Mercosul.

Após ter trabalhado como vendedora, a jovem conseguiu emprego numa produtora de TV, onde também foi contratado seu namorado, de 27 anos. Ambos alugam um apartamento no bairro de Belgrano e se sentem “muito à vontade”.

— Na Venezuela, os jovens não têm a menor possibilidade de sair de casa, a adolescência se prolongou até os 40 anos ou mais — lamentou Luis.

MAIS DE 170 MIL VIVEM NOS EUA

O número de venezuelanos que desembarcaram em Buenos Aires foi grande em 2015. Em janeiro, a página “Venezuelanos na Argentina”, criada por Hugo Marcelo no Facebook, tinha 1,3 mil membros. Hoje, tem quatro mil. Estima-se que atualmente cerca de 10 mil venezuelanos vivam no país.

— Chegamos há três anos. Pensamos em nos mudar para os EUA, mas a questão do idioma era complicada — contou o advogado Paul Small, de 45 anos, que abriu uma sorveteria no bairro de Palermo. — Eu e minha mulher tínhamos casa, dois carros e vendemos quase tudo. A situação econômica ficou muito difícil e a insegurança está cada vez pior. Depois das 18h ninguém sai na rua.

Esses são, de fato, os dois motivos que estão expulsando milhares de venezuelanos do país, segundo pesquisa realizada pela professora de Demografia da Universidade Católica Andrés Bello, Anitza Freitez. De acordo com ela, a migração mais forte começou há 15 anos, mas se acentuou muito nos últimos dois anos.

— Os destinos são muitos, principalmente Estados Unidos, Canadá, Espanha, Portugal, Itália e, na região, México, Panamá, Colômbia, Equador e Argentina — apontou a professora, que calculou (com base em dados do Banco Mundial e outros organismos) a migração de cerca de 800 mil venezuelanos desde que a revolução bolivariana chegou ao poder, em 1999.

O fenômeno que Maduro insiste em negar também foi estudado pelo professor Iván De la Vega, da Universidade Simón Bolívar. Para ele, nos últimos dez anos, pelo menos 1,2 milhão de venezuelanos deixou o país. Em 1980, cerca de 33 mil deles viviam nos EUA. Hoje, o número chega a 172 mil. O que mais preocupa os especialistas locais é que, segundo pesquisas, 96% dos jovens profissionais que deixam o país não têm planos de retornar.

A jovem advogada M.D. trabalhava numa grande empresa, com um bom salário. Em termos econômicos, sua vida ia bem. Mas, ela não suportou a insegurança e no ano passado fez as malas junto com o marido e rumou para o México.

— A prima de uma amiga foi baleada numa praia da Ilha Margarita e quase morreu por falta de atendimento médico. Naquele dia, decidi que tinha chegado a hora de partir. Sentimos culpa pelos que ficaram, mas era sair ou esperar que a bala terminasse em nossas cabeças.

Para o economista Nicolás Cardenas, de 27 anos, morar neste momento na Venezuela é viver com uma sensação de frustração constante. Depois de ter criado uma empresa de descontos on-line que chegou a ter 57 funcionários, Nicolás passou a enfrentar uma série de obstáculos burocráticos que obrigaram sua companhia a reduzir o número para apenas 16. As dificuldades de crescer em seu país o levaram a optar por fazer um mestrado nos EUA.

— Depois do roubo na eleição presidencial de 2013, fiquei muito decepcionado com a oposição, perdi as esperanças — admitiu Nicolás, que não tem planos de voltar à Venezuela.

PROFESSORES FOGEM PARA PAÍSES VIZINHOS

Nos últimos três anos, estima-se que a Universidade Central da Venezuela (UCV) tenha perdido 700 professores que, em muitos casos, optaram por emigrar a outros países em busca de melhores salários. No caso da Universidade Simón Bolívar (USB), o número chegaria a cerca de 500, segundo informações publicadas recentemente pelo jornal “El Carabobeño”, que fez uma ampla reportagem sobre a fuga de cérebros que assola a Venezuela. O motivo é simples: atualmente, o salário médio de um professor venezuelano é de apenas US$ 77.

— Os venezuelanos foram bem formados e estão recebendo boas ofertas no exterior — disse ao jornal o vice-reitor administrativo da Universidade de Carabobo (UC), José Angel Ferreira.

No ano passado, 101 professores da UCV abandonaram o país para tentar sorte no exterior. Nesta universidade, o salário de um professor titular com dedicação exclusiva, a posição mais alta na estrutura acadêmica, fica em torno de 50 mil bolívares, abaixo da cesta básica familiar, que em julho passado era de 54.205 bolívares.

O venezuelano Luis Gustavo Celis, que há 25 anos vive na Colômbia, passou a receber vários pedidos de emprego de compatriotas nos últimos tempos:

— Muitas pessoas que fizeram uma pós-graduação abandonaram a Venezuela para buscar novos horizontes. Se existisse a possibilidade de repatriá-los seria necessário oferecer um salário justo, para que possam se sustentar — disse ao “El Carabobeño”.

A preocupação entre os que ainda permanecem no país é grande. Alguns países, como o Equador, têm programas específicos para pesquisadores estrangeiros com doutorado, o que têm atraído os venezuelanos. O governo do presidente Rafael Correa oferece passagens aéreas, US$ 500 para moradia e um salário que oscila entre US$ 4 e US$ 6 mil,

— Estão ficando com nossos educadores. A redução também afetou o setor de pesquisas, já que muitos se sentiram atraídos pela oferta do Equador — disse Karelys Fernández, presidente da Associação de Professores do estado Zulia

Por Janaína Figueiredo

Fonte: O Globo

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