Pra Vale não vale nada, pra nós, vale é muito

Pra Vale não vale nada, pra nós, vale é muito.

Em 29 de novembro de 2007, a Companhia Vale do Rio Doce apresentou, no Rio de Janeiro, a sua nova marca, criada pela empresa norte-americana Lippincott Mercer, especializada em “branding” e “design”, em parceria com a brasileira Cauduro Martino.

À época, a empresa explicou que abandonaria as expressões “Companhia Vale do Rio Doce”, “Rio Doce” ou a sigla CVRD, considerando a brasilidade, a força, a simplicidade e a sonoridade do nome “Vale”, que a partir daquela data seria usado em oito idiomas. Bravo!

No dia do lançamento, o então presidente da empresa, Roger Agnelli, disse sobre a nova marca: “Em qualquer lugar do mundo, a pronuncia Vale é fácil. Vale significa valor. É um nome curto e de fácil fixação. O logo, eu vejo um coração, porque adoro essas coisas de emoção. Pode ser um símbolo de infinito. Ao mesmo tempo, é um símbolo de vale e de uma mineração a céu aberto já em seu plano final. Se colocar de cabeça para baixo, parece o triângulo de Minas Gerais.” Vixe!

Passados quase que exatos 8 anos do lançamento da marca tão exaltada por Agnelli, todos os elementos simbólicos e valorativos elencados por ele são jogados por terra (ou na lama) pelas pessoas atingidas pelo mar de dejetos das represas da Samarco (localizadas em Mariana), que também pertencem à Vale e a mineradora australiana BHP. As interpretações dos internautas são as mais diversas, mas a emoção de cada um é bem distinta daquela expressada por Agnelli.

O que mais chamou a atenção na mudança, não foi o formato geométrico da marca, nem os elementos gráficos, e sim a supressão do Rio Doce. Aí, nas redes sociais, do nada surgiu o desabafo viral: “A Vale, que já havia retirado o Rio Doce do nome, agora tira o Rio Doce do mapa”.

NA CONTRAMÃO

Na contramão do que fez a Vale, ao suprimir o Rio Doce do nome, os figueirenses fizeram durante anos uma coisa curiosa. Vamos lá: Figueirense é o gentílico de quem nascia ou morava no distrito de Figueira, um lugarejo empoeirado, banhado pelo Rio Doce. Figueira se localizava numa planície em meio a um mar de montanhas verdes. A maior e mais imponente montanha deste lugar era (e ainda é) a Ibituruna, com 1.123 metros de altitude ao nível do mar.

Figueira era distrito de Peçanha, MG. O nome era esse aí: FIGUEIRA. Mas em muitos documentos históricos, os figueirenses (que povo teimoso!) colocavam, por conta própria, o Rio Doce. Assim, informalmente, o distrito se chamava “Figueira do Rio Doce”. Era um erro, claro, mas perdoável. Raciocinemos: se tirasse o Rio Doce da Figueira, era a morte certa, afinal, ninguém vivia sem água? Quem vive sem água, me diz?

Passados tantos anos, vira e mexe aparece um historiador pra dizer, com ar professoral:“Figueira do Rio Doce nunca existiu, o que existiu foi o distrito de Figueira”. Ora, dane-se a história. Deixem o Rio Doce na Figueira. É ou não é?

Figueira emancipou-se em 31 de dezembro de 1937, com o nome de FIGUEIRA. Mas teve gente teimosa falando e escrevendo “Figueira do Rio Doce”. Até que, em de 17 de dezembro de 1938, Figueira mudou o nome para Governador Valadares, homenageando o governador de Minas Gerais daquela época, Benedicto Valladares Ribeiro.

Lá vem teimosia. Governador Valadares cresceu e o nosso jornal diário é “do Rio Doce”. Estamos no Vale do Rio Doce, bebemos a água do Rio Doce, fazemos caminhada na Avenida Rio Doce, viajamos na Viação Rio Doce, a gente não vive sem o Rio Doce.

Finalizando: se a Vale não quis (nem quer o Rio Doce), a gente não vive sem ele. Dá pra entender toda justificativa da marca e do nome Vale, afinal, de que vale o Rio Doce pras pessoas de oito países do mundo? Nada. Pra nós, Vale! Então, Vale, trate de nos devolver esse rio limpinho, com água limpa, peixes, frango d’água, gavião caramujeiro, patinho mergulhão, cascudinho, dourado, lambari, pacumã… Queremos tudo de volta. Quanto custa? Ah, sei lá!. Só sei que perto da riqueza da Samarco, BHP e Vale, que destruíram o rio, não custa é nada. Comecem, então, amanhã mesmo, lá na nascente. Limpem tudo. Já! Isso é uma ordem!

Publique-se, cumpra-se!

 

Esta crônica foi escrita por Alpiniano Silva Filho, Tim Filho, jornalista e editor da Revista Brasilianas (Houston, Texas/USA), nascido e criado em Governador Valadares, cidade que teve o seu rio destruído depois do acidente ambiental de Mariana.

Deixe Seu Comentário

Revista Brasilianas

Revista Brasilianas is a community magazine focused on the Brazilian communities in the
United States.
- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Revista Brasilianas é uma revista regional focada nas comunidades brasileiras no
Estados Unidos.
- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Media Kit - Português
Download

Media Kit - English
Download
- - - - - - - - - - - - - - - - - -
info@revistabrasilianas.com
(657) 2BFFHOU
(657) 223-3468

Expediente

Diretora Executiva
Priscila Trummer

- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Editor de Jornalismo Brasil
Tim Filho

- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Redes Sociais
Rovena Fundão

- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Diretoria
Ana Paula Barbosa

- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Marketing
Daniella Zakhour

- - - - - - - - - - - - - - - - - -
Web Designer
Antonio Neto

Latest Posts