Fertilização in vitro: a realização de um sonho ou um pesadelo

Quando ouvimos a expressão fertilização in vitro, associamos a ela outras palavras como bem-sucedido, certo, fato consumado, gravidez confirmada etc. e nunca imaginamos que esse pode ser um caminho duro, solitário, ineficiente e triste. Claro que nem todos os casos são e nem podem ser considerados totalmente perdidos. Mas, como sempre podemos dizer que a esperança é a última que morre, eu ainda não perdi a minha.

Venho de uma família formada de pais que foram adotados, o que deixou muitas lacunas – e acredito que ainda estejam abertas até hoje. Meus pais nunca foram um exemplo de casamento perfeito. Por isso eu cresci com a ideia de que nunca me casaria, e ter filhos não fazia parte dos meus planos. Terminei a faculdade aos 22 anos com sonhos de seguir uma carreira profissional brilhante, onde não havia planos para uma família com filhos, marido e um cachorro… até conhecer meu marido, aos 27 anos. Então eu descobri que o mundo não era aquele que eu havia planejado desde a adolescência. Filhos, porém, não faziam parte dos nossos planos naquele momento. 

Passei a vida inteira me programando e achando que eu poderia ter o total controle quanto ao tempo em que as coisas deveriam acontecer. Aos 32 anos, após longos dois anos difíceis de adaptação em Houston, eu decidi que já era a hora de parar o anticoncepcional. Talvez ainda não tão tarde para a nossa geração, mas para mim já era tarde até demais. Eu jamais havia pesquisado qualquer coisa na vida em relação à questão fertilidade feminina & idade.

Minha mãe sempre me alertou sobre isso, e eu achando que ela sonhava com mais um neto. Ela teve muitas dificuldades na primeira gravidez devido a problemas hormonais, isso aos 24 anos. Eu sempre perguntei sobre isso aos meus ginecologistas e todos foram categóricos em dizer que o problema dela não teria influência em mim. No entanto, tristemente, eu estava enganada. Eu não sabia sequer o que era a semana de ovulação ou, muito menos, acreditem, como era o caminho de se concretizar uma gravidez. Claro, eu não acreditava em cegonhas, mas nunca me interessei de fato em descobrir como era todo esse processo. Eu achava que era só o espermatozoide fazer o caminho correto e tudo estava perfeito. Então, após seis meses sem tomar remédio, eu descobri que ele não fazia seu trabalho sozinho.

Comecei, então, a comprar diversos kits de ovulação para que eu pudesse controlar o dia exato. Aprendi a contar os dias e fazer a famosa tabelinha. Com 10 meses sem anticoncepcional, eu já estava muito preocupada. Procurei diversas vezes o meu ginecologista e o que eu ouvia nas consultas era que não se poderia investigar nada antes de completar 12 meses sem a pílula. Mas será que para uma pessoa já com seus 33 anos (quase 34) era aconselhável ter esperado tanto tempo?? Essa pergunta eu faço até hoje e, confesso, tenho muita raiva disso.

Completados 12 meses, enfim, meu médico resolve que o melhor seria encaminhar meu caso direto para uma especialista, pois eu já estava com uma idade avançada, segundo ele. Mas então por que não há uma mudança na investigação em quem tenha idade avançada, já que adiar a gravidez hoje é um problema da nossa geração? 

A notícia

Automaticamente, ao sair do consultório do meu ginecologista, eu marquei uma consulta no especialista, que enfim iria resolver meus problemas. No início eu achei que seria algo fácil de ser resolvido. Eu era saudável, praticava exercícios físicos, me alimentava bem… não era possível ser algo tão sério assim. Após realizar muitos exames de sangue, foi constatado que eu tinha uma idade hormonal de 45 anos e que o tratamento de fertilidade mais indicado para o meu caso era o FIV (IFV em inglês), ou seja, fertilização in vitro.

Existem hoje vários tipos diferentes de tratamentos, isso vai depender de cada caso. Fertilização in vitro, Indução da Ovulação, Inseminação intrauterina, Transferência Intratubária de Gametas e ICSI. No meu caso foi logo decidido o FIV, pois com 34 anos (na época) e com a idade hormonal de 45, eu já não tinha muito tempo a perder. Foi o maior baque da minha vida. Não é fácil ouvir de um médico que seu único caminho para ser mãe passa por um tubo de ensaio. Eu fiquei semanas em choque, aquilo não poderia ser real.  E, com o tempo já valendo ouro àquela altura, resolvi enfim começar esse tratamento, aos 35 anos de idade. 

Assim que concordamos em iniciar, o maior medo primeiramente foram os custos. Foi então que descobrimos que o nosso seguro de saúde iria cobrir 70% do total a pagar. Nossa, isso foi um alívio, mas mesmo assim no meu primeiro ciclo tivemos um gasto de US$7.000. No segundo (sim, houve dois ciclos), gastamos US$10.000. Mas antes de liberar o “pagamento” para o tratamento, o seguro de saúde encaminha o casal para uma assistente social, como parte do programa chamado RRS, em que nos fazem diversas perguntas sobre o porquê do nosso tratamento in vitro.

Após todo o trâmite de pagamentos e liberação do seguro de saúde, recebi um calendário com as datas de todos os exames, ordem das injeções, os dias de possível coleta dos óvulos (Egg Retrival), a transferência do embrião (já fecundado em laboratório com o esperma), o contato da farmácia (sim, somos nós que fazemos essa ponte) e uma lista de sites que explicam como aplicar injeções. Tivemos que aprender como fazer isso também. Foi meu marido quem aplicou todas as injeções no primeiro ciclo, enquanto no segundo eu tomei coragem e me apliquei sozinha. Não tem muito mistério, chega até a ser fácil. Por incrível  que pareça, fui instruída a voltar a tomar o famoso anticoncepcional. Isso não entrava na minha cabeça, porque voltar a tomar um remédio que impede a gravidez? Pesquisei em diversos sites e descobri que o remédio era para controlar nosso ciclo e para os médicos poderem controlar a ovulação. 

O ciclo de injeções

Foram longos 14 dias de anticoncepcional e diversos exames, até que eu ouvi do meu médico que era chegada a hora de parar. Sonhei tanto com esse dia, fui ao mall e comprei até roupas mais larguinhas para o dia da coleta dos óvulos e a transferência do embrião. Já sonhava com minha barriga grande e meus enjoos. No meu primeiro ciclo foram 15 dias de doloridas injeções, sempre à noite, num total de oito vilas em uma única seringa. E, durante esse tempo, eu ia à clinica, em dias alternados, para fazer uma transvaginal (exame de ultrassom muito conhecido por nós mulheres) e exames de sangue.

O ciclo de injeções depende de cada caso e de cada paciente. No meu caso, tomei a dose máxima para induzir a produção de óvulos. Meu primeiro ciclo foi um desastre. Inacreditavelmente, no 15º dia de injeções, eu só havia produzido um único óvulo. O normal varia de cinco a 15 óvulos por ciclo, mas em uma situação normal nós mulheres podemos produzir um óvulo a cada oito vezes ao ano. Eu me agarrei nessa esperança e, mesmo com toda a minha frustação, foi marcado o dia da coleta dos óvulos.

Me internei logo cedo pela manhã, em jejum total. Recebi uma roupa igual a de cirurgias mais complexas e diversas enfermeiras entraram no quarto para fazer as mesmas perguntas (parece que é uma rotina em todos os consultórios aqui, né?). Recebi anestesia geral e fui encaminhada ao centro cirúrgico. Meu marido foi para uma outra sala, onde fez a coleta do seu material, que deve ser feita no mesmo dia da coleta do óvulo. Acordei já em uma sala com o médico sentado ao meu lado, dizendo que eu estava liberada, pois já havia conseguido retirar o óvulo.

A espera

A clínica instrui a aguardar uma ligação para saber como está a evolução do óvulo. Foram exatas 24 horas para meu sonho desmoronar. Até hoje me lembro desse dia, acho que irei lembrar para o resto da minha vida. Foi um misto de vazio, impotência e tristeza. Ninguém espera que uma fertilização in vitro dê errado. A clínica (pelo menos a que eu frequentei) possui um website onde o paciente pode acompanhar todos os resultados de exames e ver sua evolução. Ao checar meus exames no site e comparar com outros na internet, eu percebi que tinha algo errado. Não precisei fazer Medicina para entender que o tratamento não estava dando certo. Por que meu médico não fez nada? Eu não quero julgar, mas isso nunca entrou na minha cabeça. Comecei a duvidar da eficiência do tratamento aqui nos EUA, por acompanhar tantos blogs e depoimentos na internet, eu percebei que meu tratamento não estava sendo acompanhado da maneira como eu gostaria. Após aguardar duas semanas para ser atendida pelo meu médico, elaborei diversas perguntas e resolvi colocar em questão todo o método de tratamento. De fato, ele concordou comigo em alguns pontos e resolvemos fazer uma nova tentativa com outra medicação. 

Tudo de novo

Mais uma vez voltei ao anticoncepcional, aguardei 14 dias e foi iniciado o novo ciclo de estimulação ovariana com injeções. Nesse novo ciclo, eu resolvi fazer tudo diferente: diminuí drasticamente as atividades físicas, parei de tomar café e só me alimentei com tudo o que pudesse beneficiar a minha fertilidade. Realmente funcionou: a cada ida à clínica era uma alegria imensurável. Eu me via grávida, pois as injeções estavam respondendo, eu estava inchada e sentia as fisgadas que toda a mãe sente nos primeiros meses de gravidez. A cada exame eu descobria um novo óvulo dentro de mim, eu já tinha oito quando foi marcado novamente a coleta. Como no ciclo anterior, foi realizada a mesma rotina. Ao acordar recebi a maravilhosa notícia de que haviam sido retirados seis óvulos. Eu tinha a certeza de que dessa vez meu sonho seria realizado. 

Foram longos três dias até receber a notícia de que meus seis óvulos haviam sido fertilizados e seriam encaminhados para a biópsia. A biópsia leva de três a dez dias, onde são realizados diversos teste laboratoriais para saber se o embrião está saudável e não representa risco de uma possível gravidez interrompida. Eu já não via a hora de implantar meus “filhos”, o recomendável por alguns médicos é que você implante de dois a três óvulos para ter um sucesso maior. Após dez dias sonhando, eis que eu sou acordada com a notícia de que só um óvulo poderia ser implantado. Entre os outros cinco, alguns não se desenvolveram e outros se desenvolveram mais que o normal. Eu não poderia acreditar que aquele sonho novamente virara pesadelo.

Mais uma espera

Mas eu ainda tinha esperança que aquele óvulo poderia, sim, ser meu filho. Escolhi diversos nomes, tenho uma lista até hoje guardada, fiz planos, mudei para um apartamento maior e já sonhava com o enxoval. Novamente aguardei quase duas semanas para minha consulta, e hoje eu acho que essa demora foi proposital. E o que parecia impossível novamente aconteceu: meu óvulo não poderia ser implantado, pois a clínica não tinha 100% de certeza se seria saudável ou não. Sugeriram uma nova estimulação com injeções ou um óvulo doado através de bancos doadores. Eu juntei toda a minha força e vocabulário para dizer, com todas a letras, que eu não iria tentar novamente e que não precisava de um óvulo doado. 

As dúvidas que ainda pairam

Já se passaram dois meses e eu não voltei à clinica. Sei que o tempo passa, mas será que tudo não foi feito de forma atropelada? Será que eu fiz o caminho certo? Por que não comecei por reposição hormonal? Por que? Por que? São milhões de perguntas que me faço, depois de sofrer tanto sozinha, mas essa é uma luta de nós mulheres. Resolvi ir a um médico no Brasil e quem sabe ouvir uma nova opinião. Não estou mais questionando o tratamento aqui, mas a forma como as coisas são feitas. Me senti um tubo de ensaio onde eram feitas diversas experiências, e o ser humano foi jogado de lado. Até hoje quando entro uma loja de bebê, me bate uma frustração e um vazio enorme.

Já ouvi diversas vezes as pessoas perguntando “por que você não adota?”. E por que devo perder a esperança? Já questionei a vontade de Deus sobre o porque de eu não ter sido abençoada. Mas também acredito que tudo tem o seu porque, e Deus sabe o que faz. E aqui estou eu com lágrimas nos olhos, tentando alertar sobre o tempo da fertilidade feminina. Não faça muitos planos, não adie muito… Deixe o tempo seguir seu destino, tudo tem sua hora e lugar. E eu não vou desistir!

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