Entrevista Leo Maia

No repertório, Léo Maia dá uma pausa em sua carreira solo para incorporar no palco o pai e cantar seus grandes sucessos. “Cresci ouvindo este repertório. Faz parte de mim. Minha educação veio desse repertório, minha alimentação vem daí”, coloca.

Léo Maia ainda comenta sobre a recente revisão biográfica de Tim Maia. Foi feito filme, peça de teatro e livro. Ele diz que não leu a biografia escrita por Nelson Mota. “Eu não quis ler. Como sou muito sincero, não quis ler para não ter que depois falar. Mas, quem leu – como minha mãe – falou bem”. Ele define Mota como o homem que abriu as portas para o Tim Maia.

Todavia, durante a entrevista, o cantor diz que o filme sobre seu pai é um “desserviço à música feito por um arrogante e ruim”.  Confira a entrevista na íntegra.

Você trouxe uma série de shows para os Estados Unidos onde faz um tributo a um dos maiores ícones da nossa música que é Tim Maia. Você praticamente revive o Tim Maia no palco. Outros cantores fazem isto também, mas creio que com você é diferente, pois é dar vida ao seu pai. Na sua visão, quem foi Tim Maia?

Meu pai – independente de ser o Tim Maia – foi um grande pai. Ele foi uma pessoa maravilhosa. Eu fico feliz por Deus me usar para que eu possa matar a saudade dele, bem como matar a saudade que as pessoas sentem dele. Para mim é mais que uma honra, ainda mais em um espetáculo que também envolve cantores locais que também cantarão Tim Maia. Sem sombra de dúvidas um espetáculo que será maravilhoso. É sempre especial. É um mimo ao meu coração fazer este show. Eu fico feliz. Não é algo que eu faço sempre mas eu gosto de cantar Tim Maia porque é lindo. Eu me alimentei deste repertório. Eu vivo este repertório. Minha educação foi paga com este repertório. Eu aprendi a tocar com este repertório.

O Tim Maia foi um incentivador da sua entrada na música?

Cara, o meu primeiro dinheiro foi com música. Eu caí na besteira de pedir uma mesada para o meu pai argumentando que a playboyzada tinha este dinheirinho pra curtir e tal. E ele com aquele jeitão dele chegou e disse: ‘Que legal! Quer dizer que os playboys ganham dinheiro para estudar em colégio caro né, meu irmão? Que legal. Para tomar banho também? Que legal!’. Aí eu falei: “É, pai!”. E ele: “Então, é o seguinte. Vem cá, você quer começar pela mesada ou quer logo uma cadeirada também?”. A gente morava na Barra, no Rio de Janeiro, e tinha um quiosque que tocava música. Ele me disse: “Quero ver se tu é esperto mesmo. Se é, vai lá tocar e trabalhar”. Mas eu tinha só 14 anos de idade. Ele mandou eu me virar e disse que se eu tocasse violão mesmo ele ia me dá um dinheiro. Eu fui lá e toquei. Eu já comecei ali e gostei da onda porque ganhei uma grana no dia. E comecei a fazer toda orla. Eu comecei e nunca mais parei. Comecei a trabalhar com sete anos de idade, mas foi como escravo (risos). Trabalhava para a banda Vitória Régia. Hoje, como eu estou maior vi que meu pai me explorava, né (risos)?

Agora resgatando um pouco da história do Tim Maia. Teve filme, a biografia do Nelson Meto, o espetáculo. E você nota que o Tim Maia – pela biografia pelo menos e pelo espetáculo – que, apesar das polêmicas da vida dele, a questão das drogas, enfim, ele era um meninão, sem maldade. Isto fica bem visível. O Tim Maia era assim mesmo?

Cara, em casa – dentro de casa mesmo – era totalmente diferente. O Tim Maia não tem nada a ver com meu pai. Meu pai era o Sebastião Rodrigues Maia. Era o outro cara. A gente tinha que entrar em cada e pedir a benção. Eu entrei para a faculdade com 17 anos. O meu pai dava ingressos de show e discos para secretárias, atendentes, todo mundo para falarem se eu estava matando aula e o que eu andava fazendo na faculdade. Só que eu era um Maia também, né velho? Então se o meu pai dava dois ingressos para o show, eu ia lá e dava quatro para não ser entregue. Sabe como é (risos)?  Se meu pai dava um disco, eu dava três. Então, meu pai era outra onda. Era um grande pai e grande amigo. Ele tinha – claro – outro discurso diferente dos outros pais. Ele era suave. Ele dava a ideia do tipo assim: ‘pô, meu irmão, tu vai dar esse mole aí?’. Ele falava de um jeito que eu conseguia entender como jovem. Isto fez a gente ficar muito amigo. Com 13 anos de idade eu dirigia o carro dele depois do show quando ele não conseguia dirigir. Ele chegava: ‘vamos embora, meu irmão, me leva para casa’. A gente era muito parceiro.

Uma coisa impressionante. Quando você cita as frases do Tim Maia parece ele falando…

É isso. Eu sou filho dele. Levei esporro pra caramba e tive que aprender na marra.

Em muitos casos, quando as pessoas resgatam a história do Tim Maia, a música é deixada de lado e são exploradas as polêmicas nas quais ele se envolveu, como ocorre – por exemplo – na abordagem que o filme dá. Isto te incomoda, quando a história reconstrói o Tim Maia só levando em conta os excessos cometidos?

Cara, não é que incomode. Eu só acho ruim – e isto eu preciso falar de forma muito séria – quando é feito um desserviço à música. É isto que o filme fez: um desserviço à música e ao cinema. O cara que fez é um despreparado, arrogante e muito ruim. Escolheram um cara ruim para fazer uma história genial. Fala mal do meu pai por uma hora e meia. Além disto, é preconceituoso, é racista. Saca? O cara não cita um disco. Não cita uma música. Não entrevistou o Erasmo Carlos que foi amigo do meu pai e interlocutor entre ele e o Roberto Carlos. Sequer conversou com o Roberto Carlos. É uma história muito intrínseca para você querer dar a sua interpretação sem querer ouvir as pessoas. O cara não chamou a minha mãe para conversar sobre a vida do meu pai. O cara não conversou com os parceiros históricos. Eles estão vivos. Não falou com o Cassiano, cara. Ele é que compôs Primavera. O Cassiano trouxe para o meu pai a fusão com o nordeste e deu ideias. O Cassiano resolvia os problemas das harmonias. Um fenômeno do nordeste. O cara não é nem citado para o filme. Dá honrarias para quem não merece. Quem deu oportunidade para o meu pai foi o Nelson Mota. Eu fiquei triste pela forma como foi feito o filme. O cara achou que falar de droga e do trash ia vender ingresso. Foi burro. Meu pai é o Bob Marley brasileiro. Você não pode falar mal do Bob Marley em canto nenhum do mundo. Como você não pode falar mal do meu pai em canto nenhum. Meu pai é reverenciado lá fora. Recentemente David Bowie pediu para lançar material do meu pai pela gravadora dele. Foi porque ele arrumou uma confusão nos EUA e mandaram ele para cá, mas se ele fica lá, a nomenclatura da música americana ia ganhar mais um título genial. Ia ser James Brown, Steve Wonder e Tim Maia. Ele está ali junto com estes caras.

Uma coisa que pouca gente fala é que o Tim Maia – mesmo diante de alguns fatos polêmicos – teve uma visão empreendedora ao ser dono da própria obra…

Pois é. Olha que coisa genial que o cara perdeu de falar no filme. Meu pai foi o primeiro artista no mundo a ter a visão de que o artista tinha que ter sua própria gravadora. Foi o primeiro no mundo a ter sua própria editora. Eu me lembro dele falando isto para todo mundo: “E aê, meu irmão, vocês falam que eu sou doidão, que eu sou maluco, mas a minha obra é minha, tá ligado? Eu sou o único que sou dono de tudo’. Porque todos os artistas têm uma gravadora, editado por alguém. E esses caras pagam um tributo as grandes empresas para receber uma pequena parte daquilo que é deles. Meu pai é o único que do primeiro disco até hoje é dono de tudo.

E a biografia do Nelson Mota?

Eu sou muito franco e muito sincero. Por exemplo, a peça. Não me convidaram para ir à peça baseada no livro. Eu não falo da peça porque não me convidaram. E eu achei indigno pagar para ir a uma peça em que determinado momento fala de mim. O livro do Nelson Mota eu também não li. Para não ficar bolado. Porque se eu ficar bolado eu vou ter que falar. Minha mãe leu e conta para mim e o Nelson Mota era – verdadeiramente e genuinamente – amigo do meu pai. Era o cara para quem o meu pai ligava para falar da vida, com quem meu pai chorava. Isto está na biografia e é 100% verdade. Quem sou eu para ler e me meter numa treta que vem antes de nascer. Eu tenho certeza que tem histórias que nem entrou e nem tem nada a ver.

Ser filho do Tim Maia – no início da tua carreira – ajudou mais ou atrapalhou? A expectativa em relação em relação ao som que você iria mostrar deve ter sido grande.

É injusto às vezes. Porque as pessoas olham para uma história já consolidada, que é a do Tim Maia, e acha que você vai chegar já com o mesmo nível. Isto é injusto. Mas, eu – por outro lado – entrei pela porta de serviço. Nunca me fiz valer. Eu sempre fui enjoado. Andei com os caras mais cascas grossas possíveis. Eu sou extremamente criterioso para tudo. Não faço qualquer programa. Não aceito nada que não seja real ou verdadeiro. Eu poderia está milionário, mas eu ia ter que vender a minha alma para coisas que eu não estou preparado. Todo mundo quer que eu grave um disco com as músicas do meu pai. Eu nunca gravei. Eu fiz o meu trabalho, os meus discos, já coloquei canções em novelas da Globo. Eu tenho cinco que tocaram em novelas. Eu consigo transitar na rádio e toca sem propina ou jetom. Toca pela qualidade mesmo. Eu sou verdadeiro comigo e estou e sou aquilo que eu quero ser.

Entrevista concedida a Lula Vilar

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