Entrevista Especial – Edilberto Mendes

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Foto: Marcos Malta

“A comunicação tomou outra cara, outro rumo.”

A história da mídia comunitária brasileira nos Estados Unidos merece um capítulo à parte, com o título Edilberto Mendes. Mineiro de nascimento, mas vivendo na América há mais da metade de seus 66 anos, ele é um dos pioneiros e provavelmente a maior referência da comunidade quando o assunto é jornalismo e cultura. Afinal, até recentemente Edilberto era o editor do jornal The Brasilians, o mais antigo em língua portuguesa ainda em circulação em solo americano,  fundado em 1972.  Edilberto foi idealizador e um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter). Quer mais? Por muito tempo ele foi o produtor do Brazilian Day, o maior evento brasileiro fora do nosso País, que todos os anos reúne milhões de pessoas num fim de semana de setembro em Manhattan.

Só que Edilberto resolveu deixar estas atividades de lado para se dedicar a outros prazeres. Aposentado, ele tem viajado muito e aproveitado para fazer aquilo que sua profissão nunca permitiu: descansar. Mesmo assim, ele não consegue deixar de pensar em parcerias e novos projetos – e um deles deve vir em forma de livro, sobre sua vida e o legado de uma busca incessante por uma integração maior dos brasileiros na América.

Para um bate-papo com Edilberto, a Revista Brasilianas convidou seis jornalistas para formular perguntas ao decano da mídia comunitária brasileira nos Estados Unidos. Do alto de seus mais de 30 anos de vivência no jornalismo, ele conta que acompanhou a chegada da Internet às redações e seu impacto na comunicação, revela sua preocupação com a crise das mídias impressas e critica a desinformação da nova safra de profissionais. É sobre isso (e muito mais) que ele fala na entrevista abaixo.

 

Tim Filho – Jornal Oquê! Minas Gerais: Quando você iniciou o jornalismo brasileiro nos Estados Unidos, não existiam softwares de comunicação nem tecnologia mais avançada. Então, quais foram as dificuldades encontradas no início que hoje em dia não existem mais, tanto no sentido de fazer o jornal quanto no processo de apuração das matérias e confecção da notícia em si?

Edilberto Mendes – Quando eu cheguei aos Estados Unidos em 1980, tudo era muito difícil. Os teclados das máquinas de escrever não tinham acento ou cedilha, e quase tudo era feito manualmente, num processo artesanal chamado past up, onde você colava as galeras das matérias nas colunas das páginas do jornal. Um processo que parecia simples, mas era complicado, matemático e calculado, difícil, mas que nós nos adaptamos facilmente. A internet só aparece em 1990 como um bicho de sete cabeças, que no princípio assustou um pouco, mas fomos conhecendo a tecnologia e nos acostumando e nos ajustando. Eu, particularmente, acredito que a maior invenção do mundo foi o Google, que facilitou enormemente a vida de todo mundo em relação à informação, descobertas e pesquisas. Para não ficar atrás precisamos conhecer e dominar essas ferramentas que foram facilitando a vida da gente. A comunicação tomou outra cara, outro rumo.

Tim Filho: O possível desaparecimento do jornalismo impresso preocupa?

Edilberto Mendes – Sim. O papel está desaparecendo e estamos muito preocupados porque o papel é um documento que você tem em mãos, consequentemente mais perene. O jornalismo virtual dilui… mesmo estando arquivado, desaparece. Essa é uma das grandes preocupações do momento, mas claro que mesmo estando tudo mais fácil, mais rápido e mais prático, muitos lidam ainda com o saudosismo do grande jornalismo, que também não existe mais. Antigamente as pessoas mandavam as matérias pelos correios. Nós conhecemos o fax em 1982. Tudo isso eu acompanhei. Comercialmente também houve mudanças, ou seja, vendiam-se mais anúncios antes do que hoje. Naquele tempo os comerciantes não tinham outra forma de anunciar seus produtos e serviços a não ser pela televisão, pelo rádio ou em material impresso. O impresso tinha uma vantagem porque era mais barato e mais durável. A televisão era o processo mais sofisticado, mais caro. Quanto ao rádio, que na minha opinião é o veículo mais forte e mais rápido, as pessoas gostavam, mas tinham um certo preconceito em anunciar. Então, o jornalismo impresso ganhava de braçadas. A mudança para o jornalismo eletrônico veio como avalanche, como uma novidade. Eu acho que chegará um momento que isso vai cansar, pois você pode estar lendo uma matéria interessante e logo vem um comercial indesejado. O leitor não para para ver aquele comercial, a primeira coisa a ser feita é interromper e mudar a página ou tentar deletar, fechar o anúncio inconveniente. Estes anúncios que aparecem no meio de uma matéria são uma comunicação falha. Uma mensagem que não tem efeito verdadeiro, concreto.

Tim Filho: O brasileiro que mora no exterior, de fato, procura esses produtos em língua portuguesa. Antes da internet, os jornais impressos tinham mais aceitação?

Edilberto Mendes – Nós brasileiros que vivemos no exterior temos uma característica que nos diferencia de todas as outras raças: nós não somos imigrantes. A grande maioria dos brasileiros que está fora do Brasil veio dar um tempo fora, e não para ficar para sempre. Na minha visão e experiência de vida, eu acho que os brasileiros que estão fora querem um dia retornar ao Brasil de forma definitiva e reatar os seus laços. Eles procuram saber o que está acontecendo com o Brasil. Se você perguntar aos brasileiros que moram fora do Brasil como está o nosso País, eles vão dizer o que está se passando por lá, eles sabem informar perfeitamente o dia a dia do Brasil, com raríssimas exceções. Alguns tentam se esquivar dizendo que só leem o New York Times, só veem a mídia internacional, o que não é verdade absoluta. Costumo dizer que você não consegue esquecer a cara da sua mãe… ou seja, você estará sempre ligado ao Brasil de alguma forma, de algum jeito. Eu acredito que o leitor brasileiro quer se manter informado com aquilo que interessa ele com relação ao Brasil e ao resto mundo.

Bianca Alighieri – Revista Brasilianas: Entrevistas por e-mail e por telefone já são rotinas nas redações. É uma praticidade que facilita o trabalho do jornalista, mas que impede o contato face a face com o entrevistado, contato esse que cria confiança e faz a entrevista render mais, e até gera informações novas que não seriam reveladas em uma entrevista por e-mail. Gostaria que você comentasse um pouco isso e nos dissesse se isso afeta de alguma forma a qualidade do texto e da informação que chega ao leitor.

Edilberto Mendes – Muitas dessas entrevistas que a gente vê por aí que são feitas pela internet, não estão sendo respondidas pela pessoa foco da entrevista. Um exemplo: eu envio uma entrevista para Obama, e quem responderá serão seus assessores. Eles falam o pensamento de um conjunto de ideias, que não é o presidente. Falam o que querem, porque não existe um testemunho, pode ser até que as informações não sejam honestas, sinceras. Falta o fator cara a cara, que é muito importante para ver a reação do entrevistado. O entrevistador precisa conhecer as reações corporais do entrevistado para conseguir ver o que ele quer responder e aquilo que ele gostaria que não fosse revelado. A entrevista pela internet fica bonitinha, fica redonda, mas o entrevistado não enfrenta nenhum tipo de situação que o coloque diante de desafios.

Bianca Alighieri: Jornalista que não se adapta ao leitor está fadado ao fracasso. Quais mudanças você viu acontecer no gosto do leitor ao longo da sua carreira. O que mudou e o que continua igual?

Edilberto Mendes – O jornalismo tem tomado um rumo bastante diferenciado do que foi proposto quando a gente estudava na universidade. Eu não chamo isto de modernismo. As escolas de jornalismo tiveram um papel fundamental na vida do estudante de jornalismo de alguns anos atrás. O jornalista hoje é muito mal-informado, escreve mal, tem um modismo singular, e alguns deles seguem uma escola que eu não saberia definir para você. Então não acredito que exista adaptação, eles se viram como pode e fazem um jornalismo que não é aquele que foi proposto no meu tempo, coisa de uns 25 anos atrás. Os tempos mudaram, mas para pior. Conhecemos grandes jornalistas, os grandes articulistas, grandes escritores, grandes poetas. Coisa que não existe mais. Os bons jornalistas hoje estão desaparecendo. Não conseguimos ver um grande escritor. A cultura brasileira tomou um rumo completamente desfocado da realidade brasileira. A cultura brasileira hoje sofre as consequências e enfrenta o caos da desinformação. São poucos os autores, escritores, compositores com bom senso que ousam colocar em prática o que foi ensinado lá atrás. Os textos são muito fracos, ruins, as escolas cada vez ensinam menos e o pessoal que está aí lutando, atuando, me desculpe, são muito fracos e desinformados.

Bianca Alighieri: Você viu o jornalismo dar uma reviravolta tanto na questão tecnológica quanto no que se refere à liberdade de imprensa. Que dicas você daria para os estudantes de jornalismo que vão entrar no mercado?

Edilberto Mendes – Meu conselho para os estudantes de jornalismo hoje é simples. Se você quer se comunicar antes de mais nada precisa conhecer a língua. A primeira coisa a fazer é ler, ler muito, conhecer a história, conhecer os grandes autores, conhecer a língua, saber escrever, pois jornalista que não sabe escrever não serve. É desastre. Tem muita gente atuando como jornalista, mas que produz textos ruins, com péssimas informações, sem conteúdo e com erros de concordância. Você precisa estar sempre estudando, pesquisando. Então a primeira coisa a fazer é ler, ser bem informado, conhecer a língua. O jornalismo deu essa reviravolta que você está mencionando porque hoje temos nas redações pessoas que não estão capacitadas.

Carlos Borges – Focus Web News: Depois de realizar tantas coisas relevantes para os brasileiros nos Estados Unidos, você não pensa em fazer algo mais autoral, mais pessoal?

Edilberto Mendes – Sim, claro. A primeira coisa que eu gostaria de fazer seria um livro, mas eu não quero fazer um livro como todos os que estão por aí, que contam “Ah, quando eu cheguei aos Estados Unidos…”. Nada piegas, nada disso, eu gostaria de criar algo novo… Algo que não tenha no mercado. Eu quero contar passagens a respeito de meu encontro com pessoas, gente que vale a pena ser lembrada, como referência. Este livro está sendo produzido com cuidado, enquanto estou dando um tempo na vida e nas ideias. Estou descansando, conhecendo pessoas, viajando muito, conhecendo o mundo que eu não conhecia.

Arilda Costa – Brazilian Times: Edilberto, sabemos que você se aposentou e agora está curtindo e viajando mais. Algum projeto na gaveta para nos surpreender?

Edilberto Mendes – Ideias e projetos existem muitos, assim como alguns convites para desenvolver iniciativas em parcerias. Mas eu estou com muita cautela, estudando tudo isto e dando um tempo na vida. Acabo de me aposentar. Tenho viajado muito e mantido muitos contatos com varias organizações. Estou muito fascinado com a Europa e vejo grandes possibilidades de desenvolver projetos por lá.

Arilda Costa: Você faz  parte da história da comunidade brasileira em NY, promoveu vários eventos importantes na cidade, e também faz parte da história do sucesso do Brazilian Day. Você também conhece os personagens mais influentes da nossa comunidade. Gostaria de saber uma história interessante vivida nesses anos todos de América. Divide com a gente uma dessas que você nunca mais vai esquecer.

Edilberto Mendes – As conquistas do Brasil e de brasileiros na América são uma coisa incrível, mas muito pouco divulgadas no Brasil. No exterior, nós somos responsáveis por não deixar morrer os aspectos de nossa História, na nossa trajetória. Eu vejo o esforço isolado de diferentes correntes comunitárias querendo impedir que se apague no tempo a nossa passagem por um país como a América, onde se respeita tanto a História. Existem fatos marcantes e importantes dos brasileiros na América, de toda ordem. Os veículos comunitários, num esforço fora comum, lutam para que as pessoas, os fatos e a História do Brasil na América não se percam no tempo. Estes veículos têm um valor além daquilo que se imagina. A comunidade brasileira, por não ser feita de imigrantes, não consegue ser unida, o que é uma pena. Mas estamos cheios de histórias de conquistas de toda ordem. O brasileiro é forte, um vencedor. É uma pena que ele não consiga entender os seus valores, seus méritos e o do seu conterrâneo, também um vencedor.

Beto Moraes – Rádio do Povo 1360AM: Você acompanhou toda a evolução da mídia, sobretudo os veículos que envolvem a língua estrangeira. Em Boston, o rádio se consolidou como o grande veículo de comunicação dos brasileiros com mais audiência que a TV. A que você atribui isso? E por que este fenômeno não acontece em outros estados?

Edilberto Mendes – Eu costumo afirmar que o rádio é veículo de comunicação que tem mais apelo devido ao seu alcance. São mensagens mais diretas e imediatas. Você está no carro, na cozinha e em qualquer parte e o rádio te acompanha. Você fala diretamente com o ouvinte, sem nenhum tipo de interferência. Uma das grandes vantagens e motivo de engrandecimento das rádios, na minha opinião, foi a presença das igrejas evangélicas que souberam usar com sabedoria a força do rádio na divulgação de suas teorias de fé.

Laine Furtado – Revista Linha Aberta e atual presidente da ABI-Inter: Como você define ética no jornalismo praticado nas redações dos veículos de comunicação onde a linha divisória entre notícia e marketing é tão pequena?

Edilberto Mendes – A ética usada em todos os campos da comunicação tem hoje encontrado dificuldades para exercer os seus princípios. A palavra ÉTICA que significa caráter no comportamento humano tem sido atropelada por uma série de interesses pessoais. Ser ético passou a ser algo difícil de ser observado no cumprimento de valores estabelecidos na sociedade. São sinais dos novos tempos. No jornalismo não é muito diferente. Muitos veículos utilizam a forma “editorial” para não entrar em conflito entre a notícia e o marketing, o que é muito comum. Esse conflito existiu no passado, onde o jornalismo possuía um perfil mais rígido, observando os fatos como verdade absoluta, principalmente na apuração de fatos de toda ordem. Hoje nos defrontamos com uma situação caótica onde os princípios morais têm muito pouca relevância. Ao redigirmos o Manual do Conselho de Ética da ABI-Inter, por exemplo, tivemos muita dificuldade em definirmos de forma prática e objetiva do que pode ser realmente considerado ético no nosso dia a dia. Então eu acredito que depende muito do veículo e de seus princípios e da consciência do profissional de uma determinada organização.

 

 

Foto capa: João Viana – Veja TV

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