Deixa eu te contar … com Patrícia DaPaz Vendink

O Português nosso de todos os dias

Aqui em casa, comemos arroz, feijão, french fries e sauerkraut. Nossa família é um exemplo do mundo globalizado em que vivemos: a mãe é nascida no Brasil, o pai na Alemanha e os filhos nascidos nos Estados Unidos. Muito embora esta realidade multicultural e multilíngue não seja real na vida de muitas pessoas, segundo o psicólogo francês François Grosjean, a maioria da humanidade é bilíngue ou vive em sociedades bilíngues e, ao contrário do que possa parecer, nos dias de hoje falar apenas um idioma é a exceção.

O domínio de duas ou mais línguas é algo procurado no mercado de trabalho e acrescenta valor no currículo de um estudante ou profissional. Mas, além de ser símbolo de melhores oportunidades quando falamos em finanças, ser bilíngue também traz benefícios cognitivos como mostra a psicóloga e neurocientista Ellen Bialystok. Após 40 anos pesquisando o impacto que a aquisição de uma segunda língua causa no cérebro, Ellen afirma que uma pessoa fluente em dois idiomas se torna sensível à habilidades metalinguísticas, apresenta níveis altos de criatividade e também desenvolve uma maior capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo – uma vez que, o cérebro já está acostumado a receber e processar informações em duas línguas ao mesmo tempo. Além disso, um bilíngue pode mostrar sintomas de Alzheimer cinco a seis anos mais tarde do que um monolíngue.  E, as vantagens do bilinguismo não podem ser medidas apenas no âmbito cognitivo e profissional. Aprender uma outra língua nos ajuda a entender as circunstâncias e as diferentes realidades de indivíduos que vivem em outras partes do mundo. Temos a tendência a sermos empáticos e mais abertos a diferenças culturais quando podemos falar a língua do outro; a língua daquele que é diferente de nós.

Com todas as vantagens citadas acima, há uma que é a razão pela qual o português (e não o espanhol, o francês ou o chinês), é falado lá em casa: ele é a chave para o desenvolvimento de uma amizade entre meus filhos e meus pais. Ele não apenas uma segunda língua, uma língua estrangeira que faz dos meus filhos bilíngues. Ele é um elo que une continentes e no qual eu expresso afeto àqueles que estão a milhas de distância do outro lado da tela do computador. O português é parte de quem eu sou.

No entanto, criar filhos falantes de português fora do Brasil é um trabalho árduo especialmente quando as crianças passam sete horas na escola expostos exclusivamente a língua local. Há uma pressão em nos encaixar, em pertencer, em ser parecido com as demais famílias com quem convivemos. Há um medo de que nossos filhos não serão bem sucedidos nos primeiros anos na escola, que terão dificuldades de aprender a língua de fora se não forem expostos desde muito cedo. Há diferentes motivos e dificuldades que envolvem a educação bilingue. Ficamos cansados, frustrados e, muitas vezes, desmotivados por sermos um contra a multidão de falantes da língua majoritária lá fora e dentro de casa.

E, por isso, seguindo o provérbio popular africano: “É preciso uma vila inteira para educar uma criança”.  O trabalho de se ensinar português à uma criança começa com os pais, mas o suporte da comunidade é fundamental para sermos persistentes e consistentes. A boa notícia é que com o desenvolvimento da tecnologia temos mais recursos disponíveis vindos de diferentes partes do globo. Podemos encontrar grupos de suporte, sites especializados em bilinguismo, livros e materiais que auxiliam pais, professores e pesquisadores e ainda, projetos que promovem o desenvolvimento do português com a ajuda da comunidade lusófona. Todos estes recursos nos inspiram, motivam e ajudam a mantermos o foco, mas toda a teoria e todo o incentivo externo não serão suficientes se não partimos para a prática.

Se você deseja que seus filhos mantenham ou aprendam português, há algumas coisas que você pode fazer:

1- Fale em português com seus filhos. O processo de aquisição de linguagem se dá a partir de um falante e um ouvinte. Então faça do idioma algo real, fale das coisas cotidianas. Explique o que você está fazendo, o que está planejando fazer ou como foi o seu dia. Conte histórias da sua infância, dos passeios, dos membros da família, das festas culturais, da comida, da vida no Brasil.

2- Leia livros, cante músicas, conte piadas, ensine brincadeiras que você brincava quando criança. Procure desenhos, filmes e vídeos em português. A televisão pode ser uma grande aliada na ampliação do vocabulário.

3- Procure outras famílias que compartilham do seu objetivo. Marque encontros, crie grupo de leitura ou de brincadeiras e não apenas para incentivar o uso do idioma, mas para que seus filhos conheçam outras crianças que possuem uma dinâmica linguística parecida com a deles.

Independentemente do motivo que o faz manter o português na sua família, lembre-se que você não está sozinho. Há outras milhares de famílias lutando para que a frase “eu te amo” fale tão alto ao coração de seus filhos quanto “I love you”.

 

Patrícia mora em Nova Jersey. Ela ama café, dias ensolarados e livros infantis. Para saber mais sobre seu projeto de leitura acesse: www.facebook.com/vitaminabrasilnj

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