Deixa eu te contar … com Carmela Barbosa

Meu nome é Carmela. Nasci em Minas de uma mãe paraibana e um pai mineiro. Fui
criada em Goiânia e também morei em Brasília. Sou bióloga, pesquisadora da área de
câncer.
Por amor, à ciência e à língua francesa, morei na França em três 3 temporadas
diferentes. Na última, há 10 anos, conheci o amor da minha vida, nos casamos e expatriada
continuei. Queríamos muito ter filhos, mas a maternidade demorou a me sorrir. Após
inúmeras tentativas de fecundação in vitro, finalmente consegui engravidar. Nosso
primeiro filho nasceu na França, em 2014. Desde a gravidez só me comunicava com ele em
português: a língua que vinha do meu coração, e após seu nascimento não foi diferente. O
que inclusive tem ajudado meu marido a melhorar seu aprendizado da nossa língua.
Meu marido trabalha para uma empresa de informática e foi transferido para San
Francisco. Nunca pensei em morar nos USA, mas a oportunidade era interessante pra ele,

e
quem sabe não seria boa para mim também? Ele obteve o visto L1, e eu o visto L2, que me
permite trabalhar.
Chegamos aqui em janeiro de 2015, trazendo um bebezinho de 4 meses nos braços.
Percebi que precisava de um tempo para instalar adequadamente minha família. O
momento foi propício, resolvi fazer uma pausa na carreira. Queria cuidar do meu filho por
mais tempo e se possível, ampliar a família! O que felizmente aconteceu no ano passado.
Aos 45 anos dei à luz a um casal de gêmeos!
A mudança para os USA nos trouxe um duplo desafio, manter vivas ambas as
culturas, francesa e brasileira. Nos parece essencial, permitir que nossos filhos se
comuniquem com avós, tios, tias e primos. Escolhemos viver longe de nossos países,
retirando deles a oportunidade der sentir fisicamente o carinho da família. Não podemos
inviabilizar que eles possam no mínimo se comunicar adequadamente com ela. Todo
esforço é valido para manter presente a língua e a cultura, no sentido mais amplo,
culinária inclusive. Me sinto vitoriosa quando vejo meus filhos se entusiasmarem na
mesma intensidade diante de um brigadeiro, uma Madeleine ou um cupcake! Nenhuma
cultura deve ser desprezada, tudo serve para expandir o universo deles. Nossos filhos
estão vivendo a globalização na própria pele! Seria muito triste que eles tivessem o ônus
de morar longe da família, sem ter o bônus de se enriquecer culturalmente com isso.
Mas há dificuldades. Quando meu filho mais velho completou 2 anos a pediatra me
perguntou se ele já era capaz de formar frases com pelo menos duas palavras, tristemente
eu respondi que não. Mais tarde no mesmo dia ele me disse “coucou mamãe”. Que alívio, um marco foi alcançado! O bilinguismo não é novidade ligada à cultura globalizada,
praticamente a metade da população mundial fala mais de uma língua. Não há nada de
extraordinário nisso. Não sei se existe um consenso a esse respeito, pois estudos
científicos não apontam diferença significativa entre a idade de inicio da fala entre
crianças bilíngues e não-bilíngues. Mas vejo com frequência relatos de que crianças
bilíngues demoram mais a falar. Isso vem acontecendo com nosso filho mais velho.
Comparado a outras crianças da mesma idade, percebo um ligeiro atraso na expressão
verbal dele, além da mistura das línguas. Mas nos últimos dois meses ele fez um grande
progresso! E o mais importante é ter a expectativa de que mesmo tardiamente, ele falará
perfeitamente português e francês, além do inglês que ele vem aprendendo
independentemente de nós.
Conhecendo melhor a comunidade brasileira aqui, tive consciência da minha
situação privilegiada: ter um visto de trabalho e um diploma reconhecido mundialmente, o PhD. Resolvi usufruir! Com muita ajuda formatei meu CV para o estilo apreciado por aqui e depois de um intervalo de mais de 2 anos, voltei a trabalhar. Consegui uma vaga de
pesquisadora numa companhia bio-farmacêutica. Estou feliz, me sentindo mais integrada
a este país e aprimorando meu inglês. Mas sem abandonar nossa batalha: contratamos
uma babá brasileira, matriculamos o mais velho numa pré-escola francesa, convivemos o
máximo possível com outras famílias francesas e brasileiras.
Mas sei que desafio maior ainda está por vir: a alfabetização nas duas línguas
estrangeiras. ”A estrada é longa e o caminho é deserto …”. Ainda bem que este “deserto”
está povoado por outras famílias que vivem a mesma situação e criam iniciativas lindas
para nos ajudar! Não vamos desanimar! Não sabemos quantos anos vamos ficar por aqui,
mas se for por muito tempo, pretendemos passar pelo menos um ano no Brasil e um ano
na França, futuramente. Todo esse esforço há de valer a pena, nosso franco-brasileiro, e
nossos américo-franco- brasileiros deverão ter orgulho de dizer “eu sou brasileiro”, em
português sem sotaque!

Carmela Dantas Barbosa Tricaud é bióloga, faz pesquisa sobre novos tratamentos
para o câncer. Atualmente é pesquisadora na Celgene, em San Francisco.

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