“Às vezes, a felicidade só precisa que você se manifeste”

Eu aprendi uma lição profunda sobre a felicidade por meio de um grupo de crianças cambojanas, durante meu voluntariado em uma escola em Phnom Penh. Depois de aprender sobre a história terrível do Camboja, eu estava com medo do que eu iria enfrentar, uma desesperança ilusória, ou pior – uma perspectiva cansada da vida – das crianças que eu estaria ensinando no Center of Children’s Happiness, mas eu não poderia estar mais do que equivocada.

O que encontrei foi pura absoluta alegria. Logo que eu andei pelo pátio da escola no meu primeiro dia, fui inundada por um mar de rostos sorridentes. Enquanto eu estava sentada no escritório do Centro, seus curiosos rostos redondos tinham curiosidade em espreitar por detrás da moldura da janela e da porta, pedindo corajosamente minha identidade e a presença na sala de aula.

Grupos de crianças me rodeando, segundos após eu sair do escritório, agarrando minhas mãos, envolvendo seus minúsculos braços em volta da minha cintura, perguntando o meu nome falando o deles em troca. Eles quase não falavam Inglês, mas isso não importava. O afeto não precisa de tradução. Estes minúsculos seres humanos abriram seus corações para mim totalmente e completamente em questão de minutos – nunca na minha vida me senti tão querida.

Eu passei a minha vida inteira procurando e encontrando significados diferentes para a felicidade, mas este foi o tipo mais potente. Como posso sequer descrevê-lo? É uma felicidade que instantaneamente dispara por meio do coração, e penetra pelas camadas de paredes e reservas. Eles não pedem nada, apenas um sorriso e um toque afetuoso. Isso não requer tempo, condições, ou mesmo muito esforço. É apenas um instante, um instintivo reconhecimento de que, naquele momento, você e um outro ser humano tem a capacidade de dar tudo para o outro. Eu não sabia que era possível meu coração transbordar de tanta alegria.

 

Sobre a corrupção na Educação da Cambodia

 

Minha felicidade foi manchada pela percepção de que algumas dessas bonitas crianças poderiam ser privadas de um futuro devido às limitações do sistema de ensino cambojano, extremamente corrupto. Enquanto escolas primárias,  secundárias e do ensino médio devem ser tecnicamente gratuitas, o suborno é uma prática comum. É impressionante ver que 70% dos alunos reprovaram o  exame nacional do 12º ano no ano passado, porque as autoridades não combateram a corrupção e a fraude.

Para aqueles poucos que conseguem chegar ao ensino superior, as opções são limitadas. A universidade custa aproximadamente US$ 500 por ano em um país onde o salário médio é de US$120 por mês. Os alunos que não podem pagar uma universidade têm a opção de obter um diploma técnico em dois anos nas escolas sem fins lucrativos. Estes graduados acabam ganhando aproximadamente o mesmo salário que os estudantes universitários (entre US$ 250 e US$300 por mês), eliminando o incentivo para que os alunos recebam uma educação superior em uma universidade.

Considerando que aproximadamente 50% da população cambojana tem menos de 21 anos – em parte porque muitos adultos foram abatidos durante o regime infame Khmer Rouge – lugares como o Center of Children’s Hapiness são absolutamente essenciais para as crianças desfavorecidas, uma vez que lhes dá uma oportunidade real para prosseguir uma boa educação e futuro.

 

A felicidade não precisa de “coisas materiais”

 

Nós gastamos muito tempo e pensamento buscando o significado da felicidade. A felicidade é difícil de definir, e eu estou começando a perceber o seu significado não pode ser contido dentro de uma só palavra. Pelo contrário, é um espectro, um conjunto de emoções que podem ser misturados e combinados para criar infinitas combinações de alegria.

Durante o meu tempo no Camboja, as crianças que eu ensinei, me mostraram uma nova definição de felicidade. Fiquei impressionada com a capacidade dessas crianças em dar  tanto amor a uma completa desconhecida. Como pode ser que à medida que envelhecemos, está cada vez mais difícil lutar para sermos felizes? Os ingredientes mais fortes da felicidade – confiança, amor e aceitação – se tornam mais difíceis de obter com as dificuldades da vida, desbastando o nosso otimismo. O melhor remédio pode ser alguém (ou no meu caso, e todo o exército deles) que, oferecendo incondicionalmente o amor, possa despertar em você uma parte adormecida, que tenha a capacidade de cultivar a felicidade incondicional.  

Fui embora da escola com a sensação de tê-los feito muito felizes, mas também curiosa por saber o que eu tinha feito para merecer tanto amor injustificável. Estas crianças não têm nada, e elas ainda tinham a capacidade de me presentear com risos e afeto. Será possível que quando menos você tem, você realmente tem mais? Muitas vezes penso sobre o porquê de minhas experiências com pessoas que não têm nada materialmente, particularmente nos países de segundo e terceiro mundo, e têm sido em grande parte positiva e reconfortante. Fui convidada nas casas das pessoas que, apesar de ser incrivelmente pobres, não perderam tempo de cuidar do meu conforto oferecendo-me o pouco que tinham. Por outro lado, eu perdi a conta das vezes que eu estive na casa de um pessoa que tinha uma boa situação financeira e não me ofereceram até mesmo um copo de água.
Pergunto-me se o efeito secundário de ser despojado de privilégios da vida está pesando na apreciação do amor e bondade ao próximo. Quando não estamos sobrecarregados pelo fardo emocional e financeiro de possuir muitas coisas materiais, valorizamos mais profundamente o que é realmente o valor inestimável? Estou cada vez mais convencida de que isso faz a diferença. No final, a felicidade não exige seguro, melhoramentos, ou status. Ela só precisa que você vá lá e faça algo pelo próximo.

Tradução: Rovena Fundão

 

Sobre a escritora
Celinne Da Costa é italo brasileira e vive em New York. Seu blog, The Nomad's Oasis é focado em viagens que remetem ao interior dos seres humanos, na auto-descoberta e transformação. 
Siga @thenomadsoasis para mais fotos e inspiração de viagens.


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