As dores e prazeres de criar filhos em outras culturas

Coluna “Deixa eu te contar”  por Dailza Ribeiro

O que fazer para que meus três filhos não esqueçam a língua mãe? Essa era minha maior preocupação, quando vim morar nos Estados Unidos. Eles eram bem pequenos, entre sete e dois anos de idade. Duas meninas e um menino, o caçula.

Professora e amante da nossa língua, me doía a ideia deles esquecerem o português e não conseguirem se comunicar com os familiares, nem ler os livros que li quando pequena. O que seria deles sem as “Reinações de Narizinho”?

A língua é uma coisa viva, que não se apega apenas à palavra. Tudo tem importância. Tanto o que está escrito, quanto o que é imaginado, sentido: as famosas entrelinhas. E para isso, é preciso conhecimento e intimidade com as palavras.

Para mim, era importante que meus filhos pudessem ler, sem ter que traduzir, mentalmente, do inglês para o português. Eu queria que eles fossem fluentes. O português tem ritmo e melodia na palavra falada. Usamos palavras únicas para nos expressar, como a saudade, por exemplo. É de uma riqueza exuberante, a língua.

Como não tínhamos acesso a livros infantis na língua portuguesa, a grande arma que usei foi a música. Eu e meu violão colocávamos as crianças para dormir todos os dias. Esta era também, uma forma de aliviar a grande saudade que eu sentia do Brasil. Por meio das letras das canções, eles podiam manter o contato com a língua materna.Quando minha mãe veio nos visitar, trouxe alguns livros e uma cartilha de alfabetização. Qual não foi minha surpresa quando percebi que minha filha, então com seis anos, tinha aprendido a ler em português, sozinha!

Mesmo quando as crianças, já fluentes na língua local, passaram a responder só em inglês, eu e meu marido continuamos a falar com eles em português. Não era só a linguagem que nos preocupava. Precisávamos manter o conhecimento da nossa cultura também – na alimentação, por exemplo. O fato de frequentarmos uma igreja brasileira e termos vizinhos, também, brasileiros, ajudou bastante. Meus filhos puderam fazer amizade com outras crianças bilíngues – amizades que duram até hoje. Era interessante vê-los se comunicando nas duas línguas. É claro que também se aprofundaram e viveram dentro da cultura americana. Mas, no fim, conseguimos que as duas andassem lado a lado.

Hoje, já adultos, eles são fluentes nas duas línguas, tanto para falar quanto para ler e escrever. Às vezes confundem uma ou outra palavra, e a gente acaba dando boas risadas.

Os netos nasceram e são trilíngues. Minhas filhas usam a mesma fórmula para que eles possam crescer fluentes em todas. No caso delas é um pouco mais complicado, pois o marido de uma é americano e o da outra, francês. Mas seguimos tentando fazer essa mistura dar certo!

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